Capítulo 11

Que o Corpo de Cristo e a Sagrada Escritura São de Grande Necessidade à Alma Fiel

ALMA FIEL

1. ulcíssimo Senhor Jesus, que docuras saboreia a alma devota admitida ao vosso convívio, onde não lhe é dado a comer outro alimento senão Vós mesmo, único Amado seu, aspiração suprema dos desejos de seu coração! Também a mim me seria grato derramar, na vossa presença, lágrimas de amor e, como a piedosa Madalena, banhar os vossos pés com o meu pranto. Mas onde encontrarei uma devoção assim? Onde tão copiosa efusão de lágrimas santas? Certamente na vossa presença e na de vossos santos anjos deveria o meu coração abrasar-se todo e chorar de alegria; no Sacramento tenho-Vos realmente, embora oculto sob espécies alheias.

2. No esplendor próprio da vossa Divindade meus olhos não seriam capazes de contemplar-Vos, e o mundo todo esvaeceria ante o fulgor e a glória de vossa majestade. Condescendeis com minha fraqueza quando Vos ocultais no sacramento. Mas possuo verdadeiramente e adoro Aquele a quem no céu adoram os anjos; eu, por enquanto, através da fé, eles diretamente e sem véu. E preciso que me contente com a luz da verdadeira fé e caminhe à sua claridade até que desponte a aurora do dia eterno e se dissipem as sombras das figuras (Ct 2,17). Quando chegar o que é perfeito (1Cor 13,10), cessará o uso dos sa- cramentos, porque do remédio sacramental não precisarão os bem-aventurados na glória do céu. Gozam sem fim na presença de Deus contemplando, face a face, a sua glória; e, de claridade, em claridade, transformados nas profundezas divinas, fruem a visão do Verbo de Deus, feito carne, tal como foi no princípio e será para toda a eternidade.

3. À lembrança destas maravilhas tudo me causa fastio, até as consolações espirituais. Enquanto não contemplar o meu Senhor, abertamente, na sua glória, em nada estimo tudo o que vejo e tudo o que ouço neste mundo. Vós, meu Deus, me sois testemunha de que não encontro consolação em coisa alguma, descanso em nenhuma criatura; só em Vós, meu Deus, a quem desejo contemplar eternamente. Mas isto não é possível enquanto viver neste corpo mortal. É preciso, pois, que me arme de grande paciência e a Vós me submeta em todos os meus desejos. Os vossos Santos, Senhor, que hoje exultam convosco no reino do céu, esperaram, durante a vida, com grande fé e paciência, o advento de vossa glória. O que eles creram, eu creio; espero o que esperaram; aonde chegaram, tenho também, auxiliado com a vossa graça, a confiança de chegar um dia. No entretanto, confortado com os seus exemplos, caminharei à luz da fé. Para consolação e espelho da minha vida terei também os livros sagrados; e, acima de tudo, para meu singular remédio e meu refúgio vosso santíssimo Corpo.

4. Sinto que, neste mundo, duas coisas me são extremamente necessárias; sem elas, ser-me-ia insuportável o peso desta miserável vida. Encerrado no cárcere do corpo, preciso de alimento e luz. Por isto destes a este enfermo a vossa carne sagrada para alimentar-lhe a alma e o corpo; e a vossa palavra é um facho que ilumina meus passos (Sl 118,105). Sem essas duas coisas não me seria possível viver bem: a palavra de Deus é a luz da alma, o vosso sacramento, o pão da vida. Podem ainda comparar-se às duas mesas, colocadas a um e outro lado do tesouro da santa Igreja. Numa delas, a do altar sagrado, está o Pão-Santo, isto é, o precioso Corpo de Cristo. Na outra, a lei de Deus, que contém a doutrina santa, ensina a verdadeira fé e guia com segurança até o interior do véu onde está o Santo dos Santos. Graças Vos dou, Senhor Jesus, luz da eterna luz, por nos haverdes aparelhado pelo ministério dos vossos servos, os profetas, os apóstolos e os outros doutores, esta mesa da sagrada doutrina.

5. Graças Vos dou, Criador e Redentor dos homens, que, para manifestardes ao mundo a vossa caridade, preparastes a grande Ceia, na qual nos ofereceis por alimento, não o cordeiro simbólico, mas o vosso santíssimo Corpo e Sangue. Neste sagrado banquete, de que conosco participam os santos Anjos, porém, com mais feliz suavidade, alegrais todos os fiéis, inebrando-os com o cálice da salvação, em que se acham todas as delícias do paraíso.

6. Oh! Como é sublime e honroso o ministério do sacerdote quem é dado, com as palavras divinas, consagrar o Deus de majestade; bendizê-lo com seus lábios; tê-lo nas mãos; recebê-lo na própria boca e distribuí-lo aos outros. Oh! Quão inocentes devem ser as mãos, quão pura a boca, quão santo o corpo, quão imaculado o coração do sacerdote em que entra tantas vezes o Autor da pureza! Da boca do sacerdote, que tão amiúde recebe o sacramento de Cristo, não deve sair palavra que não seja santa, honesta e útil.

7. Simples e castos sejam os olhos, que tantas vezes contemplam o Corpo de Cristo; puras e elevadas para o céu, as mãos que tocam habitualmente o Criador do céu e da terra. É especialmente aos sacerdotes que se diz na Lei: sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo (Lv 19,2).

8. Assista-nos a vossa graça, ó Deus onipotente, para que nós que assumimos o ministério sacerdotal possamos servir-Vos digna e devotamente na pureza de uma boa consciência. E se não podemos viver com inocência tão perfeita como devêramos, concedei-nos, ao menos, a graça de chorar sinceramente as faltas que cometemos e, com espírito de humildade, formar o bom propósito de Vos servir daqui por diante com maior fervor.


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